Através desta coleção, visa-se a dar maior divulgação às mais recentes pesquisas realizadas entre nós, nos domínios de Clio, bem como, através de cuidadosas traduções, pôr ao alcance de um maior público leitor as mais significativas produções da historiografia mundial. No primeiro caso, já foram publicadas várias teses universitárias, que vinham circulando em edições mimeografadas; no segundo, traduções de autores como Paul Mantoux e Manuel Moreno Fraginals. Entre uns e outros, isto é, entre a historiografia brasileira e a estrangeira, a coleção também procurará divulgar trabalhos de estrangeiros sobre o Brasil, isto é, de "brasilianistas", bem como estudos brasileiros mais abrangentes, que expressem a nossa visão de mundo. Em outras etapas, projetam-se coletâneas de textos para o ensino superior. A metodologia da história deverá ser devidamente contemplada. Como se vê, o projeto é ambicioso, e se destina não apenas aos aprendizes e mestres do ofício do historiador, mas ao público cultivado em geral, que cada vez mais vai sentindo a necessidade e importância dos estudos históricos. Nem poderia ser de outra forma: conhecer o passado é a única maneira de nos libertarmos dele, isto é, destruir os seus mitos.
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Por mais evidente que o tema dos exílios e das migrações seja muito atual, há que salientar que ele é, acima de tudo, histórico. A existência de movimentos de deslocamentos forçados de pessoas e populações – por guerras, perseguições políticas ou estigmas culturais –, de exílios e viagens vividas como consequências de circunstâncias inóspitas, permeiam a humanidade. O que não é tão sabido é que o momento vivido entre meados do século XVIII a meados do XIX, comumente chamado de Era das Revoluções sobretudo ao redor do Atlântico, viveu o surgimento das migrações e dos exílios políticos como um "fenômeno de massa", tal como afirma Jan Jansen. Razão pela qual o livro que você tem diante dos olhos se faz especialmente significativo. Reunindo especialistas jovens e seniores, seus 18 capítulos tratam várias facetas desse fenômeno, desde as experiências de fugas, exílios, viagens, circulação de ideias, de leituras e releituras de um tempo que foi vivido por muitas pessoas como de transformação.
Mas há algo especialmente relevante no saber histórico sobre a temática. A experiência do deslocamento, seja ela qual for, é única tanto do ponto de vista individual como coletivo. Deslocar-se no espaço, é ser um lugar social de referentes identitários, simbólicos e nacionais construídos, para um outro que impõe a necessidade de abrir os sentidos para uma apreensão mais profunda de novos significados, até mesmo para sua completa negação. É adaptação, choque, ressocialização, é enxergar-se de diante de uma alteridade até então desconhecida, que pode acentuar diferenças ou aplacá-las, sentimentos entre impossíveis de construirmos como se os tivéssemos vivido. Mas pensar a História é chamar a atenção aos condicionantes do lugar e do tempo, com tudo que isso significa, para compreensão da experiência do indivíduo no seu deslocar-se. É permitir ampliar a visão e ter em mente que os significados coletivos são fundamentais para refletirmos sobre vivências pessoais que a mudança acentua. Este livro é um belo exemplar de seu ofício.
— Andréa Slemian
Unifesp