Em tempos de silenciamento forçado, de genocídio e necropolítica, o livro Afeto e políticas públicas ajusta o foco para o barulho, a voz, o burburinho da ação comum radicada na alegria da transformação e da resistência. Como ressaltam organizadoras e organizador, o trabalho de fabula(r)ção é radicado em pressupostos que orientam uma atenção psicossocial com potência para superar dicotomias arraigadas (o sujeito de direitos e o sujeito de desejo; o singular e o coletivo, o corpo e a mente).
O sofrimento ético-político, a ideia de comum e o território emergem como dimensões centrais desta práxis, lugar de potência e transformação. Afinal, a sensibilidade não é apenas contemplação (como assinala Marx na crítica a Fauerbach), mas atividade prática, transformando o mundo através do trabalho (práxis sensível) e a história, pela atividade prática dos seres reais, concretos, corpóreos na (re)produção da vida.
Nesse sentido, vislumbramos diferentes sujeitos e territórios: as comunidades indígenas e quilombolas, a arte e a saúde ético-política, a adolescência e a conflitualidade. As/os autores fabulam ideias e também ações em um mundo concreto, desigual, para transformá-lo, inserindo o afeto no campo das políticas públicas. O livro é um convite, um clamor, um chamamento a experienciar essa práxis (trans)formadora, de ação potente, comum, engajada que insurge, insiste, resiste no e pelo afeto/desejo. Ele dá a ver aquela práxis sensível, como afirmava Marx, que, como atividade humana objetiva e revolucionária, não é apenas agir, mas agir com consciência para transformar o mundo.
O sensível é a(fe)tivo. E aqui ajustamos a lente com Espinosa: a essência atual do ser humano, bem como a de todo ser vivo, é o conatus, o esforço pelo qual cada um/a persevera na própria existência. Ao perseverarmos, resistimos ao que julgamos diminuir a nossa potência, mas (re)existimos, resistimos, justamente ao afirmar a nossa existência em/com nosso desejo ou esforço de perseverança no comum. Nossa ação é, portanto, afirmativa, criativa, produtiva: não negamos apenas o que pode nos diminuir, mas buscamos o que pode compor (com) nossos corpos, buscamos os encontros e a vida em comum, a composição com outras pessoas, o corpo social ou coletivo (esse corpo, constituído pelos corpos singulares que o (re)compõem, chamado pelo filósofo de multidão!).
O conjunto de textos faz emergir (d)a filosofia espinosana a importância das práticas cotidianas de resistência em nossa vida política, não apenas para fazer frente à manipulação ou subsunção do desejo da multidão na administração dos dilemas comuns, mas como necessário exercício da vida cotidiana, na práxis sensível de ação singular. Assentado nessas bases, uma imagem é retratada no livro que fecha a coletânea de Afetos (Afeto e Violência, Afeto e Comum, Afeto e Autoritarismo): a da práxis como potência de ação.
É justamente aqui que podemos vislumbrar uma ideia de resistência que atravessa e marca o livro, calcada na ação comum, coletiva, mas voltada ao singular, às pessoas singulares — às quais se volta a atenção psicossocial. O afeto, o corpo, a subjetividade, o desejo como base, ponto de partida e de chegada para políticas públicas. Com isso, edifica-se concepção de que o mundo sensível, como totalidade da atividade viva dos seres humanos que o constituem, pode redimensionar a noção de política pública em que práxis é potência de ação afetiva. (Texto das orelhas do livro: Lavínia Magiolino
Professora Livre-Docente da Faculdade de Educação da
Universidade Estadual de Campinas-Unicamp)